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Morcegos, as outras vítimas da SARS-CoV-2

Morcegos, as outras vítimas da SARS-CoV-2

Morcego-de-ferradura-pequeno (Rhinolophus hipposideros) fotografado em Huelva. Autoria: Javier Juste Ballesta

Javier Juste Ballesta, Estación Biológica de Doñana (EBD-CSIC); Antonio Figueras Huerta, Instituto de Investigaciones Marinas (IIM-CSIC) y Juan E. Echevarría Mayo, Instituto de Salud Carlos III

Desde do início, os morcegos têm sido responsabilizados pela pandemia do COVID-19. Tanto a OMS como o Ministério da Saúde, Consumo e Bem Estar afirmam que estes mamíferos alados são o reservatório do coronavírus. Hoje em dia é aceite por muita gente mundo como sendo um facto comprovado. No entanto, não há evidência científica disso, como é reconhecido pelas autoridades internacionais de saúde animal, a Sociedade Espanhola de Virologia, a Associação Espanhola de Conservação e Estudo de Morcegos, a Bat-life e a EUROBATS.

É importante esclarecer a relação que os morcegos (e seus vírus) têm com esta e outras zoonoses anteriores. As consequências da confusa criada pela associação dos morcegos com COVID-19, para esse grupo de animais tão benéficos e ameaçados, são muito preocupantes.

A origem deste imbróglio está na confusão que fazemos entre a origem epidemiológica da pandemia e a origem evolutiva do coronavírus SARS-CoV-2. A epidemiologia também compara genomas para estudar a origem dos vírus. O princípio é simples: quanto mais semelhantes forem as sequências genómicas, mais próximas serão; quanto mais diferenças genómicas acumularem entre si, mais distantes são no tempo.

Qual é a origem da pandemia?

A resposta é que não se sabe ainda. Nada indica que tenha sido um morcego, nem da origem da pandemia nem do reservatório do vírus. O que é certo, é que o SARS-CoV-2 veio de um animal, contudo ainda não foi detetado em qual.

Sim, foi possível estimar a partir do estudo das sequências, que o SARS-CoV-2 surgiu a finais de novembro ou inicio de dezembro, possivelmente na província de Hubei, na China. Sem quaisquer novos desenvolvimentos sobre o assunto até ao momento.

Qual é a origem do Vírus SARS-CoV-2?

Esta questão também ainda não foi respondida, mas existem algumas pistas. Agora sim, os morcegos aparecem: o vírus mais semelhante ao genoma do SARS-CoV-2 é o do vírus RaTG13, isolado a partir de um morcego-ferradura (Rhinolophus affinis).

O SARS-CoV-2 e RaTG13 compartem 96,2% de seus genomas, pelo que ambos vírus compartem um ancestral comum. No entanto, embora sejam semelhantes, eles têm mais de 1200 diferencias nucleotídicas, e em virtude dessas diferenças, calculou-se que o SARS-CoV-2 e o vírus do morcego RaTG13 separaram-se há 50 ou 70 anos atrás.

Essas diferenças tornam inverosímil que a origem da pandemia esteja no vírus deste morcego. Quando comparadas, também mostra que as diferenças se acumulam principalmente em duas áreas específicas e altamente variáveis do gene que determina a proteína responsável pela ligação celular (S), ambas extremamente importantes para a transmissão e infeção de SARS-CoV-2.

A primeira zona está relacionada com a ligação do recetor de membrana da célula hospedeira, designado de RBD e é a chave de entrada. A segunda zona está no ponto de ativação da junção, que incrementa o poder infecioso do vírus e onde o SARS-CoV-2 possui uma única inserção de quatro aminoácidos. Nenhum dos coronavírus de morcegos estudados apresentavam esta inserção, contudo, recentemente surgiu num vírus hóspede de outro morcego-de-ferradura (R. malayanus).

A sequência do gene da espícula SARS-CoV-2 é semelhante à de um novo coronavírus encontrado em pangolins, que inicialmente possibilitou relacionar esses animais à origem do vírus, mas os estudos mais aprofundados dos genomas rejeitaram esta hipótese.

Os dados disponíveis não suportam a hipótese de uma origem de morcego com o pangolim como hospedeiro intermediário. Tudo o que sabemos é que a origem do novo SARS-CoV-2 parece estar relacionada a um vírus presente em um morcego-de-ferradura, do qual foi separado há mais de 50 anos. O resto da história permanece, até à data, um mistério.

Morcego-de-ferradura-grande (Rhinolophus ferrumequinum) fotografado em Argão. Autor: Domingo Trujillo

Os coronavírus e os morcegos

Os coronavírus são um tipo de vírus de RNA caracterizado pela sua capacidade de recombinar e facilidade em saltar de um hospedeiro para outro com certa frequência, o que implica uma elevada plasticidade para se adaptar a novas condições e de se replicar nas células do novo hospedeiro.

Eles estão presentes em um grande número de hospedeiros, tais como porcos, ratos, pássaros, gatos, viverrídeos e camelos, mas têm uma afinidade indiscutível pelos morcegos. De fato, numerosas espécies destes mamíferos são hospedeiras de uma grande diversidade de coronavírus.

Os coronavírus estão presentes em muitos Continentes e têm uma elevada diversidade correlacionada com a diversidade de morcegos. Além disso, filogenias comparativas sugerem que os coronavírus e os morcegos terão co-evoluído muito tempo. Os vírus do tipo SARS (sarbecovírus) estão presentes de forma característica em duas famílias de morcegos-de-ferradura que se estendem desde a Ásia e região paleártica à África, mas sem chegar à América. Apenas chegaram a este Continente após a introdução do SARS-CoV-2 por humanos.

Duas zoonoses recentes estão relacionadas a coronavírus de morcego. A primeira é a Síndrome Respiratória Grave Aguda (SARS), declarada em 2003 na China e causada pelo SARS-CoV até então desconhecido, que causou mais de 8.000 casos e quase 800 mortes em vários países.

As civetas foram identificadas como uma possível fonte, uma vez que o SARS-CoV foi detetado nesses animais vendidos no mercado na cidade de Guandong, onde a epidemia se originou. No entanto, o vírus nunca foi encontrado em espécimes selvagens, portanto, considerou-se que eles não eram seu reservatório natural, mas um hospedeiro intermediário.

O vírus foi então investigado em outras espécies e descobriu-se que os morcegos-de-ferradura possuem uma grande variedade de Sarbecovirus semelhantes ao SARS-CoV. Como resultado, foi levantada a hipótese de que o surgimento da SARS teria sido causado pelo salto de um vírus da SARS de um morcego-de-ferradura para civetas e, destes, para os humanos.

Em 2012, outro surto chamado Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS) foi declarado na Arábia Saudita. Esta epidemia ainda está ativa e até o momento foram já declarados 2494 casos y 854 mortes, a sua maioria no Golfo Pérsico, embora também em outros Países.

O MERS é causado pelo coronavírus MERS-CoV, transmitido por dromedários. Ao contrário da epidemia de SARS, parece que a passagem para humanos não foi um evento único, mas ocorre repetidamente. Nesse caso, as infeções estão associadas ao contato direto com esses animais nos mercados e aos usos domésticos. Felizmente, a sua capacidade de estabelecer cadeias de transmissão eficazes entre humanos é limitada.

Foram ainda encontrados coronavírus relacionados, embora muito diferentes, em espécies muito diferentes de morcegos, principalmente da família Vespertilionidae e em regiões distantes. A conexão como o hospedeiro intermediário não é clara.

Morcego-orelhudo-castanho (Plecotus auritus) fotografado no País Vasco. Autor: Joserra Aihartza

Os morcegos albergam mais vírus que outros mamíferos?

A pergunta não é fácil de responder e a resposta requer a recolha e análise de grandes bases de dados, sem enviesamento e com tamanhos de amostra semelhantes. Um problema adicional é que os vírus de muitos grupos de mamíferos não são praticamente analisados. Quando estas são finalmente analisadas, é possível que elas nos tragam grandes surpresas, como aconteceu ao analisar os pangolins em relação aos coronavírus.

Se comparamos os morcegos com um grupo que recebeu um esforço de estudo semelhante, como é o caso dos carnívoros, o resultado é que não há diferenças no número de vírus.

Por outro lado, se compararmos os morcegos com o grupo mais diversificado de mamíferos (roedores), também não há grandes diferenças. Comparados aos 2,7 vírus por espécie encontrados em morcegos, os roedores apresentam uma média de 2,48.

Se analisarmos os mais de 750 vírus descritos para 13 ordens de mamíferos, os morcegos também não se destacam. De facto, um estudo recente indica que probabilidade as zoonoses são iguais independentemente do grupo de mamíferos e dependem da diversidade de vírus encontrados, que por sua vez está em função da riqueza de espécies de cada grupo.

A conclusão clara é que os morcegos não são mais perigosos em relação a possíveis zoonoses do que o restante dos mamíferos. Eles não eram antes e não o serão depois da pandemia do COVID-19.

Os morcegos podem contagiar-nos o SARS-CoV-2?

Como vimos, o vírus que causa o COVID-19 não foi isolado de nenhuma das 1.400 espécies de morcegos do mundo. Eles não nos podem transmitir o que não têm.

Os únicos vírus patogênicos conhecidos que os morcegos nos podem transmitir diretamente em nossas latitudes (e apenas algumas espécies) são alguns lisavírus que podem causar raiva.

Além disso, é importante lembrar que a transmissão COVID-19 é de pessoa para pessoa. E foi isso que espalhou a doença em todo o mundo.

Consequências de una acusação injusta

A proximidade evolutiva do SARS-CoV-2 a um vírus hospedeiro de morcego (RaTG13) e a existência de relações evolutivas com as causas de epidemias anteriores fizeram com que os morcegos fossem acusados de serem responsáveis pela atual pandemia. Como vimos, sem qualquer fundamento.

Morcegos não são amigáveis ou simpáticos para a maioria da sociedade. Essa perceção deve-se aos mitos e à ignorância que os rodeia. Aparência física que por vezes é invulgar, às vezes considerada mesmo grotesca e o seu estatuto de animais noturnos, não ajudam. A associação com vampiros e chupas-cabras não melhora sua imagem.

Isso desencadeou a tempestade perfeita: milhares de morcegos estão a ser abatidos no Peru, Indonésia, China e outros países para combater futilmente a pandemia. Inclusive cientistas mataram 1066 morcegos no Gabão para obter informações que seriam obtidas da mesma forma com uma amostra biológica não letal.

As consequências dessa tendência podem ser catastróficas. Apesar de seu enorme sucesso evolutivo em todos os continentes, com mais de 1.400 espécies (31 na nossa Península), os morcegos são muito sensíveis às mudanças ambientais. Cinco espécies foram extintas nas ilhas devido à ação humana, 15% das espécies estão ameaçadas e outras 18% provavelmente estão ameaçadas, embora não haja dados suficientes para incluí-las na lista de espécie ameaçadas. Apenas um quinto das espécies possui populações estáveis..

Essa atitude negativa e injusta é contraproducente: os serviços que prestam aos ecossistemas e às nossas espécies (de plantas tão úteis quanto as bananas) como polinizadores, dispersores de sementes e controladores de insetos são fundamentais para o nosso próprio bem-estar. Milhões de dólares e toneladas de pesticidas seriam necessários para substituir seu papel no controle de pragas nas culturas de milho e arroz.

Além disso, os séculos de coevolução de morcegos com coronavírus poderiam ser usados para projetar estratégias terapêuticas contra pandemias como a atual.

Ainda assim, serão necessários muitos anos de investimento em educação e divulgação para restaurar a imagem dos morcegos após essa pandemia.

Javier Juste Ballesta, Investigador Científico do Grupo de Investigación y Conservación de Murciélagos. Dpto Ecología Evolutiva, Estación Biológica de Doñana (EBD-CSIC); Antonio Figueras Huerta, Profesor de investigación del Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Instituto de Investigaciones Marinas (IIM-CSIC) y Juan E. Echevarría Mayo, Investigador científico del Centro Nacional de Microbiología, Instituto de Salud Carlos III

Este artigo foi publicado originalmente na The Conversation. Leia o original.

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